Na manhã que o amor acabou tinha urina no chão da sala. Uma
pocinha bem pequena perto da planta. Fiquei na dúvida se era água caída do
pratinho do vaso ou malcriação de bicho. Talvez eu tivesse regado e dado um
quarto de antibiótico pra cachorra que estava com tosse. Na dúvida, pensei em
fazer de novo. Sem saber, como expliquei, se era repetido. Água em dobro e
metade do remédio seriam demais. Mas não fazer, caso fosse a primeira vez,
seria de menos. Eu seco, eu rego, eu medico. Os imperativos simples e práticos
de verbos serviçais burlavam dores pessoais de pronomes.Na manhã que o amor
acabou, almocei na minha mãe. Ela contou que a colcha colorida não tinha saído
bonita na foto do site da imobiliária. Eu chorei e ela quis saber se colcha
colorida me lembrava alguma coisa. Não lembrava. Mas as frases com alguma graça
e nascidas pra nada emprestavam o charme da sua promessa, sempre me sabendo em
urgências dosadas. Eu retornava com a felicidade direta de quem é procurada
antes de se proteger e apertava suas letras comprovando, com minha digital, uma
existência catalogada. Meu pensamento era um carimbo no horizonte toda vez que
você gostava de ouvir.Foram duas lágrimas. A primeira despencou rapidamente,
como um suicida magrinho e sem talento. A segunda ficou um tempo ninada pelas
bordas até que caiu já quase seca nem passando da metade do rosto. O sofrimento
foi tão ralo que sequer alcançou o nariz. Fiquei com preguiça de alguma saudade
surpresa crescer escondida e me apunhalar em brechas de fraqueza e carinho, mas
ela nunca apareceu e agora, se chegasse, seria só uma fantasia bordada de
última hora pelo tédio. Na manhã que o amor acabou, eu cismei que probióticos
me protegem de não pegar gripe e que pego gripe sempre que o amor acaba. Me
enchi de iogurte e isso me mostrou uma novidade em ver um amor acabando: era
momento de adorar cabisbaixa uma história mas eu estava mais ocupada em me
lançar cuidadosa aos dias que nem existiam.Que nome tem estar cagando pra única
coisa mais importante do mundo? Veja que desde o começo do ano passado, só pra
citar tempos recentes, o amor já acabou três vezes. Acabou em março, em agosto
e agora em fevereiro. Mas, só porque o cinismo nos dá gosto pelo jogo do
contrário, posso dizer também que, desde o começo do ano passado, o amor já
começou três vezes. Começou em janeiro, em junho e em novembro. Temos uma média
de três a cinco meses tanto pro amor começar quanto pra ele acabar. O que
significa que logo mais tamos aí. E depois tamos aí de novo. Como se essa coisa
que tanto aconchega a loucura, como se essa coisa que tanto acidifica os
cortes, como se essa coisa que tanto vulcaniza os tamanhos. Não passasse de um
ping pong exato que satiriza as metáforas de profundidade.E só porque o cinismo
nos dá gosto também pelo jogo do tudo a mesma merda. Até pouco tempo, tinha
essa coisa de Nina Simone regida pela buzina de muco nasal no papel higiênico.
Mas pra cada dia daquela semana em que o amor acabou, eu tinha uma entrega
importante de trabalho e, se não me engano, uns dois almoços bem importantes e
pelo menos um dos meus médicos bem difíceis de marcar. A vida seguiu tão
normalzinha, eu falei pra minha analista. Tanto que você tá estranhando, ela
respondeu. É. Sorrimos sem intensidade e duração, da casca que agora separava
meu sangue de salivas. São águas que correm paralelas com uma pele no meio. Ela
só disse “olha que bom” e ser tratada como uma pessoa não foi mais tão
horrível. Eu amo pouco agora que não morro mais? Ela não respondeu. Depois
mordi bem forte meu braço sem definir se era homenagem, despedida ou
inconformismo. Ficou a suspeita de um espasmo de vício humilhado pela
desimportância do costume.
- Tati Bernardi



